Crônica - A laicidade religiosa - Manoel Messias Pereira


A Laicidade religiosa
Quando pensamos em religião, e principalmente da história do Brasil, vamos lembrar de um conjunto imenso de pessoas que aqui vivia em plena harmonia, com a vida e a sua natureza. Haviam florestas, rios, alimentos, pássaros e as pessoas na qual  aprendemos a chamá-la de indígenas devido a ideia de Cristóvão Colombo em 1492 que acreditava que indo sempre para o Oeste acabaria chegando as Índias, uma vez que ele acreditava-se na forma de uma esfera em relação a terra. E o antigo caminho  na qual os europeus iam para as Índias agora tinham os  turcos otomanos tomando a cidade de Constantinopla e não permitindo essa viagens por ali, os sejam haviam empecilhos para as embarcações europeias. Os habitantes deste local "América", passou a ser chamados de índios.  Sabemos que o navegador estava a serviço de uma nação católica, assim como todos os cristãos da época. Por outro lado quando os portugueses chegaram em 1500, vimos que eles desembarcam no Brasil em 22 de abril do corrente ano e no dia 26 de abril temos a Primeira Missa em terra firme rezada por Frei Henrique Soares de Coimbra. Portanto essas nações amigas e irmãs eram de princípio e ideologia cristã católica.

Mas observamos também que o Cristianismo, que no século XVI, houve o rompimento de algumas figuras importantes da própria Igreja e portanto vai  surgir o  protestantismo com o padre agostiniano Martim Lutero, que já sentia os pre-reformista Ian Huss da Universidade da Boemia e John Wiclyff, ambos que foram os dois professores de teologia  mortos pelo fogo do Tribunal da Santa Inquisição.
E diante disto em 1507 Martim Lutero foi ordenado padre além de monge, e entrou para o mosteiro dos agostinianos em Efurt.

O ambiente da Igreja católica nesta época estava bastante conturbado, havia problemas com questões morais, econômicas, sociais e até de formação dos religiosos. Entre os quais concubinato, vendas de relíquias religiosas e também a venda de indulgências, o que chamamos de perdão, desde  que tivesse dinheiro, terras era só pagar pra Santa Igreja. Lutero acabou indo contra. e resolveu desafiar a própria instituição naquilo que ele acreditava que não estava eticamente correto. Portanto ele recusou a cobrar as indulgências e acabou contestando, principalmente  quando o papa Leão X ordenou uma grande venda de indulgência para reformar a Basílica de São Pedro, sede da Igreja de Roma. Naquele ano um padre chamado João Tetzel foi a cidade alemã de Wittenberg para vender a indulgências em nome do papa. E ao deparar com isto Lutero vai elaborar as suas 95 teses, e tecendo críticas a própria instituição. O que levou a sua excomunhão, por parte da Sua Santidade.

Com isto vimos que o Cristianismo realmente passou por uma Reforma com o surgimento de outras Igrejas, que divergiram dos métodos, do entendimento teológico da maior instituição Medieval que foi a Igreja Católica Apostólica Romana. E desta forma assim vai surgir uma Igreja cristã que não possui a hierarquia da Igreja Católica, que não possui os 7 sacramentos e os sete pecados e sim apenas dois sacramentos, que negava a transubstanciação  e sim passa adotar a consubstanciação enfim uma igreja cristã, mas que deixava de ser católica.

E no Brasil como sabemos Portugal e Espanha, foram os dois países que num processo de colonização estiveram utilizando esse território como colonia e portanto duas nações católicas, e consequentemente uma colonia católica. Foram de princípio esses dois países que trabalharam na expulsão de judeus, árabes, ciganos da chamada terra santa. E que de princípios usaram da expressão "raça ruim", para os povos que não tinham uma cultura cristã católica e sim islâmica e mais tarde chamaram aqueles não cristãos que se converteram de "cristãos novos".

E nesse Brasil que houve o confronto entre católicos e huguenotes, durante o governo geral de Mem de Sá, quando foram expulsos os franceses que estavam em contatos com  os indígenas da Confederação dos Tamoyos, ou como dizia a minha professores de faculdade, Dona Elizete  Buissa e que hoje encontra-se no Orun para os cultos afros ou no Céu para os cristãos, chamavam esses índios de Termíninos, quando existiu a chamada hecatombe da fé, e que uma grande quantidade de indígenas foram mortos em nome de Deus. A ponto de no livro de João Ribeiro "História do Brasil para o curso superior" dizer que foi uma das maiores carnificina do mundo. E isto não foi revisto pela história oficial que fechou os olhos pra esse fato negando essa informação para aqueles que detém o conhecimento básico do ensino no Brasil. Porém observamos que entre os negros há  cultura dos orixás, e que no sincretismo religioso, o Oxóssi figura como São Sebastião e na linha da Umbanda, ele é visto ou representado pela figura de um índio e não como o caçador negro africano do pensamento africano e isto é interessante pois vejo como uma homenagens aos índios brasileiros assassinados e queimados exatamente no dia de São Sebastião e em nome de Deus.

Diante de inúmeras barbaridades que foram cometidas em nome de Deus, pelos cristãos em várias partes do planeta, e quando observamos que a Igreja sempre estavam do lado de quem mantinha um olhar de poder, portanto com a visão da elite, e é cúmplice de todas as mazelas sofridas pela classe trabalhadora. A ponto de um papa como Leão XIII, ter de elaborar a Teoria da visão social da Igreja, pois sabia do potencial do pensamento marxista, no século XIX, e pra concorrer ter esses trabalhadores sob seu olhar espiritual, teceu inclusive comentários e injurias de que grande parte dos marxistas tinham um viés diabólicos ou que eram ateus. E isto está em inúmeros livros. E é com essa forma de pensar que deparamos coma frase de Karl Marx, "A religião é o ópio do povo".

Portanto Karl Marx vai analisar a religião da perspectiva social, na premissa judaico cristã, numa sociedade europeia que ele conhecia. E nisto não temos que negar a sua sabedoria, e a sua análise e veremos inclusive no livro de Friedrich Engels "As Guerras Camponesas" que durante a revolta dos camponeses que inspirados no pastor Thomas Munzer, que acreditava que todos realmente fosse igual perante Deus, e  pregava "Não disse Cristo vim trazer-vos não a paz, porém a espada? e que deveis fazer com ela? Nada , senão afastar e separar  a gente má que se opõe ao evangelho. Cristo ordenou com grande severidade:( Lucas 19:27). Quando, porém , a esses meus inimigos que não quiseram que eu governasse, trazei-os aqui e matai-os diante de mim." E assim o que se percebe-se é o processo de violência. A mesma violência envolvendo os dois pastores, pois diante da revolta dos trabalhadores Lutero fica em favor dos proprietários de terra e Munzer que  para alguns livros escreve com Muntzer ficou do lado dos trabalhadores e acabou sendo assassinado por uma foice no pescoço quado do massacre dos camponeses, na Alemanha.

E diante desta exposição sabemos que no Brasil,  por sua tradição tivemos uma Independência, de fachada pois que já governava continuou governando e isto apenas possibilitou iniciar uma divida externa, e o primeiro país a reconhecer nossa independência foi os Estados Unidos da América, que emprestou o dinheiro para que saíssemos das garras da Inglaterra, tudo numa jogada de mestre pois toda a história já estava tramada pela grande burguesia do mundo, discutida de maneira conjurada nas lojas secretas. E com um olhar iluminista, tendo D. Pedro recebido o título de defensor Perpétuo da maçonaria. Mas o que importa é que o Brasil passou a ser uma nação cristã e católica. E segue assim até quando vem a República.

Com a República do chamado Estados Unidos do Brasil, como de princípio foi chamado, vimos surgir a ideia de "Liberdade de Culto" e isto parte da iniciativa de Demétrio Ribeiro, que mais tarde exerceu a função de Ministro da agricultura, e em 1890 o Marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil vai assinar uma lei com esse teor. e essa lei foi reescrita na Carta Magna de 1946, tendo uma proposta então do deputado Jorge Amado do Partido Comunista Brasileiro -PCB e essa lei será novamente reafirmada na atual Constituição de 1988 a chamada "Constituição Cidadã" e isto portanto exibe um Brasil laico.

A laicidade do Brasil, é um pouco de mentira, ou seja a interpretação da lei é conplicada, principalmente quando em 30 de setembro de 2017 o Supremo Tribunal Federal, disse que é constitucional o ensino religioso confessional na rede pública de ensino do Brasil. E isto vem trazer a nossa memória o decreto 7107 de 2010 que tinha uma acordo entre Brasil e o Vaticano em relação a Escola pública e que foi um assunto discutido pela Conferência Estadual da Igualdade Racial ocorrida na faculdade de Direito do Largo São Francisco, na cidade de São Paulo, na segunda conferencia. Sabemos que no senado Cristóvão Buarque de Holanda do PPS, afirma que "A escola não deve ensinar educação religiosa", já a Procuradoria Geral da República, questiona  trechos da Lei de diretrizes e Bases da Educação sobre o assunto. O Ministro Alexandre de Moraes afirma que o aluno pode optar pela disciplina e poderá escolher a crença preferida e a escola deverá ter professores vinculados a essa religião ou outras.e esse julgamento do Ensino religioso não é obrigatório nas escolas particulares. E com isto o procurador vê uma afronta aos princípios constitucionais da laicidade.

Diante disto eu quero mais é meu feitiço, pois  a rigor a crença pode ser cristã, budista, islã, judaica, dos cristais, dos gnomos, das auto-ajudas, dos mapas astrológicos, da numerologia, do candomblés dos afoxés, da umbanda. de verdade eu quero ouvir e ver todas as tentações. eu quero ver as especulações sobre os rumos da humanidade e se será ou não religioso. E assim há quem afirme que a ciência desenvolve descobre isto ou aquilo e desvenda um mistério sagrada. E nisto em 1890 a física parecia uma ciência encerrada numa fase de paradôxo e mistérios, e com a teoria da relatividade e a teoria quântica o mistério da mecânica quântica continua a inspirar cientistas  e buscar explicações ultrajante e místicas.

E físico como Richard Thompso, afirmou que a física encontra-se obstáculos mais sérios pois os ousados arquitetos da Teoria da Física Universal estão dando conta de que essas teorias jamis poderão ser testadas de forma empírica  o que caracteriza a Física Moderna como uma Teologia Matemática recreacional, e se por um lado há uma aproximação daquilo que antes era apenas um segredo e uma explicação de Deus, por outro lado temos a diminuição da crença do homem nos superes poderes da razão científica como instrumentos capaz de decifrar todos os mistérios. O computador fica mais poderoso e o sonho de recriar uma inteligência humana vai enfraquecendo.

Em 1953 ao descobrir a dupla hélice do DNA, muitos cientistas pensarem em estar chegando ao segredo da genética. e desde muitos pesquisadores tem tido grande sucesso em estudar mecanismos moleculares de células vivas. A biologia molecular revelou complexidades incríveis dos mecanismos de alta precisão e assim o objetivo de explicar a origem da ida parece mais distante. E isto lembra-nos da frase quando mais estudo sei que nada sei.

William James, disse numa revista que a consciência é a nossa experiencia mais íntima e que ela é a própria vida. E nisto temos os cientistas que deparam com o enigma sob a forma da velha problemática corpo e espírito e que consiste em dizer que, sendo nossas capacidades mentais e imateriais torna difícil imaginar  como poderia estar ligadas a um cérebro como materiais. E todas essas capacidades cognitivas pertencem à esfera de nossa experiência mental : são módulos do espirito.

O professor Munis Sodré da UFRJ, afirmou que a consciência é uma operação reflexiva no máximo uma reflexão sobre si mesma, ela surge como uma forma de dominação reflexiva, instantânea automática e não necessariamente consciente. E que não há verdade como coerência absoluta.

E sei que vivemos na diversidade cultura e entre as quais estão as religiosas a  santa diversidade por isto eu fico com meu feitiço, aquele medo infantil, da vela preta, que aprendi desde a minha primeira infância que é do guardião, do dono dos caminhos, da galinha preta, que quando era garoto levei uma pra casa,  ela estava viva e foi de imensa ternura chamamos a de preta, do alguidar com a farofa pode ser de oferenda pode ser de ebós, o pano vermelho e preto como o a cor do time do Mengão e a marafa há essa vai pro mensageiro entre os seres humanos e os Deuses. E são as práticas que  sempre foram reprimidas no Brasil, basta observar os livros de Jorge amado, basta ter um olhar sincrético e propor um olhar nas fronteiras das crenças e dos conhecimentos de maneira mais fraterna e igualitária. Sempre vai haver um risco de fogo, um cabeça seca pra destratar os nossos ancestrais e a sua cultura de Paz.  Mas sei que fraternidade, respeito, que busca de igualdade, de um olhar humanístico sobre toda a população é algo incompatível com o estágio capitalista que insiste em dar demonstração de violência e exclusão e não cabe a mim materializar, neste santo momento. E por isto a lembrança de que aqui os nativos viviam em paz e em plena harmonia entre o homem e a natureza até chegar as posturas do capitalismo e com ele as teorias dos seres que em nome de deus já mandou gente pra fogueira, em que pecam desastradamente e violentamente depois acolhe-se no perdão na santa covardia da consciência.


Manoel Messias Pereira

professor, poeta e cronista
membro da Associação Rio-pretense de Escritores - ARPE
membro da Academia de Letras do Brasil -ALB
São José do Rio Preto-SP. Brasil

















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