A minha ancestralidade feminina
Cada um de nós formamos na família e temos essas referencias de pai, mãe, avós, bisavós e ancestrais para todo o sempre. Recordo que conheci minha bisavó, dona Gertrudes, era uma mulher portuguesa de estatura pequena. Lembro-me dela com saudade daquele jeito de mulher brava, mas que chegava no final do ano reunia toda a família pra rezar e cantar cantiga de reis. Assim como a minha bisavó , tive duas avós que também lembro me delas mas não de seus maridos, até porque nunca estivera presente. E por fim tive a minha mãe que vi acabar sozinha. Diferente de minha bisavó todas negras num mundo, em que se cultuava o eurocentrismo.
O que essas mulheres todas tinham era uma dedicação a casa, ao trabalho e a construção de lar para os filhos. Como Entre as duas avós, a dona Orozina Maria lembro que de vez enquanto ia na casa dela, era mãe de meu pai e tia da minha mãe assim como sogra. Fazia uma boa comida era cozinheira de hotel. A vida dela foi de tristeza pois o meu avó Sr. João Pereira dos Anjos desapareceu e até hoje ninguém sabe o que aconteceu, a ideia que ele saiu para comprar cigarros e esparecer um pouco e só nunca mais foi visto.Minha avó criou sozinha sete filhos.
Minha avó Ana Pereira dos Anjos, também irmão de João Pereira dos Anjos, casou -se com José Antonio de Souza o Ze Antonho, da folia de reis. Que pra quem não sabe era tio da minha avó Orozina. Minha avó desentendeu com meu avô e houve uma separação. O que ficou fácil, pois o casamento era só na Igreja. E assim minha avó também criou minha mãe só até tentar um novo marido.
Minha mãe e meu pai, conviveram alguns anos e depois veio a separação pois meu pai já tinha aproximadamente mais três famílias. Foi embora, e assim minha mãe ficou com três filhos pequenos eu que era o mais velho tinha apenas 5 (cinco) anos uma irã com 3(três) e outra com 10(dez) meses de idade. Ela também ficou sozinha precisou ir trabalhar pra nos sustentar.
Os ensinamentos delas era muito interessante, pois diziam onde você estiver, lembre que tens uma mãe e uma família, o mesmo repetiam todas as outras mulheres da família. Pois quando agir de modo impensado, vão crer que não teve família nem mãe. Como minha mãe trabalhava eu ficava muito com a minha avó materna e parece que a fala era a mesma.
O compromisso de filho era honrar as mães. Outro papel dado tente respeitar a todos, pois estamos num mundo de seres irmãos, e a fraternidade é algo a ser preservados. Nunca ser grosseiro com qualquer pessoa e principalmente com uma pessoa feminina.
Minha mãe dizia:
- Respeite sempre as outras pessoas que assim como você, também tem uma família. Outra coisa que apendi em casa era cumprimentar as pessoas, pela manhã sorrindo e dizendo bom dia, a tarde boa tarde e a na noite o boa noite. Saber fazer um cumprimento era coisa que todas as pessoas deviam fazer pois era um sinal de educação e respeito. ao entrar numa sala numa repartição pública ou privada devíamos sempre pedir licença.
Minha mãe também ensinava a ser solidário, a ajudar pessoas que necessitavam atravessar uma rua. A ajudar uma outra criança na escola. A olhar a minhas irmãs menores para que ela pudesse ir trabalhar. A colher lenha ascender o fogo prepara a comida, fazer um café. Dar água a todas durante o dia. A cuidar do cachorro, pois sempre tínhamos um vira lata pra tratar.
A nossa alimentação não era sofisticada, quase todos os dias comíamos sopa de fubá, ou sopa de mandioca, e as vezes vinham um osso de boi que minha mãe ganhava no açougue e colocava na sopa, quando colhíamos o arroz que também plantávamos, e socavamos no pilão tínhamos o arroz sagrado produzido em nosso quintal.
Adentrei a escola com sete anos indo completar naquele ano oito anos, estudar era algo que gostava imensamente. Quando eu achava difícil uma lição ela dizia, leia com calma e tente compreender, depois faça sempre a tarefa e durma com o caderno debaixo do travesseiro. Pois assim fica mais fácil de apreender.
Minha avó quando vinha conversar era pra mostrar fotos e falar de como a família começou. Escutava sempre com a ternura que a atenção exigia. Como minha avó assim como a minha bisavó era um mulher pequenina nunca esqueça que por duas vezes, vi desmaiar devido a pressão alta, pegava-a com cuidado carregava-a no colo e punha na cama e providenciava uma ambulância. Uma vez ela cortava toicinho na cozinha pois ela gostava de fazer o torresmo, e assim como fazer a comida com aquela gordura de porco. Quando vi caindo, recolhi a faca de sua mão pus na cama e chamei o socorro. Ela dizia que deveria estudar direito. Mas eu não fiz isto. Eu fui ser professor. fui fazer o curso de Estudos Sociais. e mais tarde história e assim por diante. Em 1974 ela veio a falecer após tentar uma cirurgia, pois sofria de estreitamento do esôfago. Morreu na mesa de cirurgia pois a pressão subiu. foi velada em casa.
Passei a respeitá-la mesmo depois de morta, pois entendi que ela também estaria fazendo parte agora do seres dos meus ancestrais. E como na história da Grécia antiga em que tinha -se um culto familiar, onde aos deuses da casa sentia -se a lareira, além de ter um culto oficial público. Comecei encarar a vida assim. Pra mim ela passou a fazer parte do meu culto particular, ou domiciliar. Já o oficial deixei que fosse a crença da minha mãe que era umbandista.
De minha mãe também lembro as frase que ela dizia, respeite sempre pra ser respeitado. E quem com ferro fere com ferro serás ferido. Amar era a tarefa precisa e que deveríamos cultivar ao longo de nossa vida. Penso que essas mulheres me fizeram como um ser humano dotado de sensibilidade para as coisas da humanidade. Creio que ainda hoje mostro que tive uma família, uma mãe. E comecei a entender porque as mulheres sempre gosta de enfeitar a casa com flores, de encerar o chão, é sim para a casa ficar bonita, como elas, como as atitudes delas, como os conhecimentos de respeito que conseguiram transmitir a mim. Essas coisas do coração, que sinto e agradeço-as por elas terem existidos na minha vida. De forma sensível e simplesmente bela.
Manoel Messias Pereira
professor, poeta, cronista
Membro da Academia de Letras do Brasil -ALB
São Jose do Rio Preto-SP. Brasil


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